Boa noite, 03 de Junho de 2026
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Crônica em Pauta

Por: Joilson Bruno

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Bora entender sobre Marketing e Política, comunicação, redes sociais, conteúdo 4.0 e blá...blá...? Sou Jornalista MTE 1.333/MA , MBA em Marketing e atualmente acadêmico de Letras UEMA

Da exclusão ao empreendedorismo: como uma mulher trans transformou a própria história em exemplo de autonomia e inclusão em Caxias


Data: 03/06/2026 09:25

“Decidi que era hora de mudar. Eu mereço andar na rua à luz do dia e ser respeitada pelo que faço.” A frase resume a trajetória de Raianny da Silva Santos, 24 anos, moradora de Caxias, no leste maranhense. Nascida no povoado Sossego, ela enfrentou desde a infância desafios relacionados à aceitação de sua identidade de gênero, convivendo com preconceitos que impactaram sua vida pessoal e educacional. “Com cinco anos de idade, eu já me via como mulher. Gostava de me vestir com roupas femininas escondida, sem que minha mãe soubesse”, relembra.

 

  

Foto: Joilson Bruno / Jornalista

Durante a infância e adolescência, Raianny enfrentou situações de discriminação que tornaram a permanência na escola cada vez mais difícil. A falta de acolhimento e o preconceito vivenciado no ambiente escolar contribuíram para o afastamento dos estudos ainda muito jovem. Sem oportunidades e enfrentando dificuldades para se manter, ela acabou encontrando na prostituição uma forma de sobrevivência. Ainda adolescente, mudou-se para Minas Gerais e posteriormente para São Paulo, onde passou anos trabalhando em condições marcadas pela vulnerabilidade social.

Apesar das dificuldades, Raianny carregava consigo um sonho: construir uma vida diferente.

Esse sonho começou a ganhar forma em 2016, quando realizou um curso de cabeleireira no Instituto Ana Hickmann, em São Paulo. O conhecimento adquirido naquele período permaneceu guardado até que, anos depois, se tornaria a principal ferramenta para sua transformação. Durante a pandemia da Covid-19, ela retornou para Caxias. Com o dinheiro economizado ao longo dos anos, conseguiu se manter por algum tempo. Quando os recursos começaram a acabar, veio a reflexão que mudaria sua história. “Quando o dinheiro terminou, percebi que só sabia fazer aquilo. Foi quando me perguntei: será que sou apenas isso? Então decidi que poderia ser muito mais.” Foi nesse momento que Raianny decidiu investir no conhecimento que havia adquirido e apostar no empreendedorismo.

Foto: Joilson Bruno / Jornalista

 

Abrir um negócio próprio não foi uma tarefa simples. Além das dificuldades financeiras comuns a quem está começando, Raianny também precisou enfrentar o preconceito. “No início, muitas clientes desistiam quando descobriam que eu era uma mulher trans. Mas eu continuei. Cada atendimento era uma oportunidade de mostrar meu trabalho e minha capacidade.”  Com persistência, ela montou seu próprio salão de beleza em Caxias, tornando-se uma das primeiras mulheres trans da cidade a administrar um empreendimento do segmento. “Quando montei meu salão foi muito difícil. As clientes não apareciam, mas eu não desisti. Cada dia representava uma vitória.” 

 Foto: Redes Sociais

O pequeno negócio passou a representar muito mais do que uma fonte de renda. Tornou-se símbolo de independência financeira, autoestima e inclusão social.  Atualmente, mesmo morando de aluguel em um bairro periférico, Raianny consegue manter seu empreendimento funcionando e construir sua autonomia por meio do próprio trabalho. Ao conquistar seu espaço no mercado da beleza, Raianny passou a representar uma referência para outras pessoas que enfrentam situações semelhantes. Sua trajetória demonstra como a qualificação profissional pode criar oportunidades de mudança e romper ciclos de exclusão social. Além da conquista profissional, ela também viu sua relação familiar se transformar ao longo dos anos. “Consegui quebrar muitas barreiras. Minha avó, que era uma das pessoas que mais resistiam à minha identidade, hoje me chama pelo meu nome feminino. Minha mãe me apoia e me acompanha para todos os lugares.” Para ela, as mudanças observadas em Caxias também demonstram avanços importantes na inclusão da população trans. “Ainda existe preconceito, mas hoje vemos mais mulheres trans estudando, trabalhando e ocupando espaços que antes pareciam impossíveis. Precisamos continuar avançando.”

Foto: Joilson Bruno / Jornalista

Mais do que contar uma história de superação, Raianny utiliza sua experiência para incentivar outras pessoas a acreditarem na educação e na capacitação profissional como caminhos para a independência. “Estudem, trabalhem e não desistam dos seus sonhos. O caminho não é fácil, mas vale a pena. Para nós, muitas vezes é preciso lutar duas vezes mais para conquistar o que para outras pessoas parece simples.”  Hoje, cada cliente atendida em seu salão representa uma conquista construída com esforço, perseverança e coragem. A trajetória de Raianny da Silva Santos mostra que o empreendedorismo pode ser uma ferramenta de transformação social, capaz de gerar autonomia, promover inclusão e abrir novos horizontes para pessoas que historicamente enfrentam barreiras de acesso ao mercado de trabalho. Mais do que um negócio, seu salão tornou-se um símbolo de resistência, dignidade e oportunidade, demonstrando que investir em qualificação profissional e empreendedorismo também significa criar caminhos para uma sociedade mais inclusiva e justa.

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